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HERANÇA
Guy Veloso
O trecho a partir da cidade de Navarrete tinha tudo para não ser uma das minhas melhores recordações do Caminho: um longo e tedioso trecho por autopista de sete quilômetros de extensão. Depois de passar pelo cemitério municipal, tomei o acostamento do asfalto em sentido contrário ao pesado fluxo, sempre preocupado com os carros que aproveitavam a reta para testar seus motores.
Naquele ponto conheci um jovem casal espanhol, Rosana e Gonzalo. Como não dispunham de mais de 20 dias de férias, eles haviam saltado do ônibus momentos antes e, daquele exato ponto iniciado, entusiasmados, a sua grande aventura.
Caminhávamos os três em fila indiana pela pista a fim de cortar o vento que vinha em rajadas com o passar dos ônibus e caminhões, quando os novatos começaram a demonstrar extremo cansaço. Também pudera: eram típicos "andarilhos de primeira viagem", com roupas impróprias para o clima, desaparelhados de cajados, com enormes mochilas nas costas e botas grossas de inverno - daquelas usadas para escaladas.
Eles já falavam em desistir e pedir carona, quando um carro estranhamente desacelerou e parou no acostamento, bem ao nosso lado.
Eram dois irmãos que estudavam na Universidade de Santiago de Compostela e retornavam para a folga em casa. Disseram os rapazes que sempre ao fazerem tal viagem, costumavam visitar a Catedral do Apóstolo Tiago e, de lá, recolher alguns dos muitos cajados de madeira deixados pelos peregrinos naquele santuário como oferenda ao término de suas viagens.
"Estes bastões já percorreram essas terras até Compostela. São relíquias que fazemos questão de dar aos peregrinos mais desprevenidos", falou um deles. "Assim vocês dois não se perdem: estes bordões já sabem o caminho até Santiago", completou, risonho, o outro, presenteando meus combalidos colegas com dois cajados.
Mais que auxílio providencial, este evento trouxe de volta ao casal a alegria, o entusiasmo. Sabiam eles que daquele momento em diante, levariam um instrumento nas mãos que já "conhecia" o trajeto até Compostela. Sabiam, Rosana e Gonzalo, que carregariam até Santiago uma relíquia que tinha marcas do suor e do labor de outros peregrinos que passaram antes deles por aqueles mesmos trajetos.
E eles deveriam ser dignos daquela herança.
Guy Veloso (guyvel@amazon.com.br),
32 anos, redator e fotógrafo. Autor do livro “Via Láctea – Pelos Caminhos de Santiago de Compostela (para ler
um CAPÍTULO GRÁTIS, clique
aqui)
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UM LUGAR DO CAMINHO
Danilo Tiisel
A capela do Santo Sepulcro (século XII) do povoado de Torres del Rio, é um exemplar precioso do estilo românico, utilizando em sua construção conhecimentos arquitetônicos islâmicos. Não há como não relacioná-la com a igreja de Nossa Senhora de Eunate, ambas, alvo de polêmicas. Igualmente concebidas em formato octogonal, quase não possuem documentos ou dados sobre suas origens e destinações. Vários historiadores acreditam que as igrejas tenham sido erguidas pelos Cavaleiros Templários para seus rituais secretos.
Outros, atribuem apenas a função de igreja-cemitério. Abstendo-se um pouco de julgamentos mais acadêmicos, esses templos sagrados seguem demonstrando o magnífico trabalho que pode ser realizado pela mão do homem. Assim, melhor seja parar um pouco, tirar a mochila das costas e ficar em silêncio. Observe como essas pequenas igrejas são ao mesmo tempo austeras e acolhedoras. Lugares perfeitos para o peregrino acalmar qualquer crise interior e fortalecer o contato com o coração, seu verdadeiro guia.
Danilo Tiisel (danilotiisel@uol.com.br), 32anos, advogado e empresário, fundador da Associação de Amigos do Caminho de Santiago - Brasil.
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