2º Informativo www.santiago.com.br


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Veja neste número:

          Textos Originais
               “Um Sonho”, por Cris Takeda

               “Dona Maria”, de Guy Veloso

               “Um Poema”, Cláudio Pellini Vargas

          Notas do Caminho
          Novos depoimentos de Peregrinos

Catedral de Santiago de Compostela (foto © Guy Veloso)


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UM SONHO

Cris Takeda

 

Por vezes corri, outras parei. Agora tento apenas caminhar. Ouço o som que silencia pelo ar e  tento encontrar o ritmo dos meus passos, nem muito rápido ou lento demais. Valsa difícil de aprender!

 

Cresci ouvindo e vendo minhas histórias como espectadora de fatos que ignorei por não  compreendê-los, acusando os motivos errados e me desencontrando de minha face. Hoje, os  assuntos mal resolvidos voltam a mim, porque é impossível fugir do auto-conhecimento.

 

Bosques da Galícia (foto © Guy Veloso)

 

Minhas feridas, antes pouco percebidas, agora se abrem. É preciso estancar o sangramento e deixar que as cicatrizes mostrem suas lições. A vida se impõe sobre a alma como raios de sol, que ignoram a vã proteção de janelas, blindadas ou não.

 

Sinto o Caminho de Santiago como esta luz sem comandos, que pacientemente insiste em banhar cada dia com o sonho de realizar sonhos. De dar o passo seguinte com a certeza de que nada é em vão, e que lutar contra o destino e a natureza do amor é estar machucando a si próprio.

 


Cris Takeda (cristakeda@uol.com.br), 24 anos, designer, prepara-se para
fazer o Caminho a pé desde Roncesvalles.



DONA MARIA

Guy Veloso

 

Dona Maria Fernanda Rodrigues da Cunha Barreto era uma senhora  rotunda, expansiva, de muitos gestos e palavras. Vivia em São Romão de Neiva, arraial vizinho a Viana do Castelo. Ela não sabia, mas naquele dia frio eu passava pela porta de sua modesta casa, com um peso nas costas maior que minha capacidade física para carregar a pesada mochila por ainda duzentos quilômetros.

 

Ela não sabia, mas naquele dia eu não havia almoçado, simplesmente porque era domingo, e não havia nenhum estabelecimento aberto. Não sabia que meus tornozelos ardiam em tendinites. Não soube de minha solidão. Ela não sabia — mas supunha — que a chuva logo banharia aquelas bucólicas paisagens verdes de Camões, Pessoa e Saramago; panoramas do Caminho Português a Santiago de Compostela.

   

Botas secando, albergue de Ribadiso de Baixo (foto © Guy Veloso)

 

Mesmo assim, sem nada saber de mim, senão que eu era um peregrino, Dona Maria Fernanda Rodrigues da Cunha Barreto tomou minha mão e me levou para dentro de seu lar. Ofereceu café servido em duas finas xícaras de porcelana, daquelas que se guardam para visitas e dias especiais e que acabam virando peça de decoração da casa, até as crianças tratarem de quebrá-las. Sem pensar duas vezes, ela requentou pedaços dilacerados de um porco no fogão — que era para o jantar — e deu-me de comer.

 

Isso mesmo. Em pleno século XX, alguém se dispôs a parar seus afazeres cotidianos e ajudar quem passava por sua porta. Desinteressadamente. Amorosamente. Independente de laços afetivos anteriores ou lucros financeiros imediatistas. Só pela alegria de servir. Só pelo prazer em ser útil.


A ela, Dona Maria Fernanda Rodrigues da Cunha Barreto, rezei a primeira oração ao chegar na Catedral Compostelana. Ela não soube. Só eu e São Tiago.

 


Guy Veloso (guyvel@amazon.com.br), 32 anos, redator e fotógrafo. Autor do livro “Via Láctea – Pelos Caminhos de Santiago de Compostela (para ler um CAPÍTULO GRÁTIS, clique aqui)


O POEMA DO CAMINHO

Cláudio Pellini Varga

Os esboços da primavera

Se mostram agora em traços galegos

O calor e o frio entrelaçam-se ao ar

Um pastor e suas ovelhas...

E um espelho turvo a se mover

Limpando dores nem tanto esquecidas

Me perco em pequenas lágrimas

Se foi meu destino

Contar uma história tão breve

Eu agora posso

E longo é o "caminho"

Cantá-lo com uma voz que chora

A alma quer e adora

Em estrada de cantos

Encantos e recantos

Espanha de luxúria e paixão

Viagem de transformação

Ferida no espírito

Sangue, dor... cicatrização

Estar ao som de um tema selvagem

Ou sob a canção da chuva

A cada abraço de um ocaso

Na liberdade do alvorecer

Tentar olhar o infinito e ver o "impossível"

Mostrar o meu tesouro...

E brincar de beijar o vento

Lá no "Alto do Cebreiro"

Ou cruzar com a pureza dentro de um celeiro

Tropeçar em um mesquinho

Na calmaria do rio Minho

Crescer a cada curva lembrando do meu ninho

Fechar os olhos e voar como um anjo

Da Catedral ao Atalaia

Por todo o oceano...

Equilibrar-se sobre o perigo

Tentar e encontrar abrigo

Eu quis

Eu fiz

E agora digo.


Cláudio Pellini Vargas(claudiopv@hotmail.com),  24 anos, Professor de Educação Física, fez o Caminho de bicicleta.

Matriz do povoado de Hornillos del Camino (foto © Guy Veloso)



NOTAS DO CAMINHO


Confirmado: será adaptado para a televisão (Rede Globo) o livro “O Diário de Um Mago”, de Paulo Coelho. As gravações começam ainda este ano na Espanha.

Cidades do medieval Caminho de Santiago dotados de cyber-cafés: Pamplona, Logroño, Burgos, Sahagún, Mansilla de las Mulas, León, Astorga, Ponferrada, Sárria, Mellide, Árzua e Santiago de Compostela.

Esteve entre nós dando palestras o famoso Restie, hospitaleiro do albergue de Castrogeriz.

Até a próxima!



NOVOS DEPOIMENTOS DE PEREGRINOS


“Todos os caminhos nos levam a Deus. O caminho de Santiago nos leva a Ele mais rápido. É um encontro a cada momento. Voltamos diferentes porque trazemos este amor no coração”.
                          
Izaura Maria Costa Vasco, de Pernambuco, fez o Caminho a pé desde Ronscevalles.

“O meu coração ainda pulsa com as energias do amor que experimentei, da humildade que vivenciei e do poder mágico da felicidade que passou a ter a minha existência. O caminho está lá, mas eu trago-o comigo em todas as minhas ações”.
                                   Joao Batista Sernaglia, de Florianópolis, a pé desde Saint-Jean-Pied-de-Port.

“O caminho de Santiago nesse fim de milênio vem como uma benção dos céus aos que o percorrem, trazendo uma verdadeira experiência nova de vida”.
                                   Deividson Souza Neves, Diamantina-MG (que ainda não fez o caminho).

Enfrentar o frio, as montanhas, a chuva, as vacas e os cachorros e dormir nos Albergues, fez com que melhorasse a minha determinação, meu senso de humildade, simplicidade e coragem. Para chegar em Santiago foi preciso muita fé".
                                                                                 
Ruiz da Silva, a pé desde Roncesvalles.  

"Se você vai fazer o Caminho, lembre-se: a pressa é inimiga da perfeição. Absorva cada imagem, cada detalhe, cada pedra,cada curva, cada bar ou restaurante como se fosse a ultima vez"
                             Gilberto José Rigotto, de Belo Horizonte, a pé desde Saint-Jean-Pied-de-Port.

“Aconselho a todos que sabem, lá no fundo da alma, que tem muito mais...”
                                                       Sônia Carvalho, de Campo Grande, a pé desde Roncesvalles.


O pôr-do-sol no fim do mundo, Cabo de Finisterre (foto © Guy Veloso)




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Omnia vincit amor