Dicas práticas

Voltar



( continuação )
(passe o mouse sobre as fotos para ver as legendas)

10- As bolhas:

Dificilmente alguém por mais preparado que esteja vai escapar destas irritações cutâneas. Por isso ponho aqui duas receitas:

a- Pegue uma agulha com linha embevecida em mercúrio cromo e a introduza na chaga, deixando no interior da bolha parte do fio com ambas extremidades da linha para fora, fazendo uma espécie de drenagem do líquido a fim de "secar" a ferida.

b- Fure a bolha com uma agulha esterilizada e depois aplique um "Compeed" (espécie de band-aid, na Espanha vendido em qualquer farmácia). Para melhores resultados, use o "Compeed" como preventivo, pondo-o assim que você notar uma irritação - por menor que seja - no pé.

Muito importante: As bolhas "de sangue", ao contrário das bolhas d'água, devem ser tratadas com o auxílio de um médico. 

Outra dica de prevenção: vou dar um segredo passado para mim pela Fátima Moraes Sousa, atual campeã sul-americana de ultramaratona 48 horas, e que fez o Caminho em outubro de 2000: comprar na farmácia “micropore”, uma espécie de esparadrapo, só que bem mais fino. Antes de iniciar cada etapa do Caminho, com os pés secos, colocar o micropore em todos os dedos do pé, envolvendo-os totalmente (inclusive a unha) em duas camadas, só tirando durante o banho. O micropore ameniza o atrito com os calçados e retém a umidade. A Fátima também usava um pouco de vaselina e talco bactericida por cima de tudo antes de calçar as meias (isto eu mesmo comprovei que dá certo na prevenção).

Ermida de San Nicolás, atual albergue de peregrinos da Ordem de Malta, arredores de Itero de la Vega (Palencia).

11- Os perigos:

Outras das dúvidas mais comuns: Quais verdadeiramente os riscos?

A- Roubos: Bem, os peregrinos hoje são vistos como "turistas pobres". Ou seja, o foco dos assaltantes certamente vai para os turistas "endinheirados" da costa do sol. Já pequenos furtos é algo que pode acontecer (como em qualquer parte do mundo...). Assim, leve o seu dinheiro e passaporte sempre com você, e não deixe nada de valor sozinho e muito à vista. Eu, por exemplo, carregava preso na barriga uma daquelas pequenas bolsas secretas de dinheiro (a venda nas casas de viagens), a qual levava até para o banho, pendurando-a no chuveiro. Muito importante: tome cuidado especial com seu dinheiro nas grandes cidades, em especial em Madrid e Pamplona. Não guarde sua bolsa de dinheiro na mochila.

B- Integridade física: esta uma preocupação constante das mulheres que enviam suas dúvidas a este site.

Pela minha experiência, vejo os estupros, assédios e voyerismo algo incomum, ou até inexistente no Caminho. É claro que por vezes ouvimos falar em um ou outro caso, mas, até agora, não tenho nenhuma comprovação. Repito: como em qualquer lugar no mundo, ficar atento(a) não custa nada.

Placa de trânsito, arredores de Larasoaña (Navarra).

Foto © Guy Veloso


C- Atropelamentos: Em alguns pontos, a rota cruza ou acompanha auto-estradas movimentadas. Todo o cuidado é pouco! Lembre-se que depois de horas de caminhada os reflexos ficam comprometidos.

D- Problemas de saúde: Ah, isto sim é preocupante. Sim, pois muitos se mandam à Espanha para andar horas a fio com a mochila nas espaldas, subindo e descendo montanhas baixo o sol forte, sem fazer antes nenhum teste clínico ou consulta médica. Se você não tem mais aqueles 20 aninhos nas costas, por favor, faça uma consulta prévia ao médico. Conte para ele que você pretende andar 800 quilômetros. Ele certamente dirá que você está louco... Mas em compensação, você partirá para a Espanha muito mais tranqüilo.

Dica Extra: O Brasil possui convênio com a Espanha através do INSS. Com ele os brasileiros previamente cadastrados ficam aptos a utilizar a rede de hospitais e serviços públicos de saúde espanhóis. 

Outra opção é comprar no Brasil um seguro-saúde internacional (vendido em agências de turismo).

Maiores informações (em SP): Consulado Geral da Espanha
Av. 9 de Julho, 611 - sala 502
telefone: (11) 239-2197

12- Os cães:

Embora no passado uma das grandes ameaças aos andantes, os cães (os que vivem soltos no mato) hoje em dia não representam sérios riscos, dado ao paulatino aumento da quantidade de peregrinos e a reabertura de antigas rotas campesinas, obrigando os cães a procurarem outro local ermo para morar. Mesmo assim, portar uma vara de madeira como cajado ajudaria a afugentar qualquer companheiro de viagem indesejado (além de ajudar como base de apoio).

Em tempo: estes bordões podem ser colhidos na Rota ou comprados em lojas de lembranças.

13- O que fazer para não se perder?

Flecha amarela, arredores de La Faba (León).

Foto © Guy Veloso

Em todo o norte da Península Ibérica, desde os Pirineus, a leste, até os confins da Galiza, a oeste, foram postos pelas Associações européias rústicos sinais para a orientação dos andarilhos, em especial nas áreas mais desabitadas.

São placas, monólitos, emblemas, pedras sobrepostas e principalmente pinturas em forma de flechas amarelas.

Hoje, os modernos viajantes encontram no chão, em postes, monumentos, muros, troncos de árvores e até nas fachadas de residências as famosas flechas amarelas, verdadeiras estrelas-guias dos peregrinos. Basta segui-las para chegar a Santiago de Compostela.

Há também livros-guia, ou seja, modernas publicações prolixas de mapas e dicas que ajudam os peregrinos a vencerem a longa empreitada. As melhores são (em espanhol):

  - El Camino de Santiago, Ed. El Pais y Aguilar, 3a edición.
    (Ediciones El País, S.A. y Aguilar, S.A. - Juan Bravo, 38, 28006,
    Madrid/Espanha - Fone: + 322-4700)

  - El Camino de Santiago. Guia del Peregrino. Ed. Everest.
    (Editorial Evergráficas, S.A. - carretera León-La Coruña, km 5. León/Espanha)

14- Quantas horas de caminhada diária?

Duas regras básicas:

Peregrinos nas ladeiras do povoado medieval de Torres del Río (Navarra).

A- Não andar rápido demais: Caminhe percebendo o que acontece ao seu redor, tão diferente do dia-a-dia nas cidades, em que mal temos tempos para pensar em nós mesmos.

B- Nem lento demais: Outrossim, lembre-se que você tem um objetivo pela frente. Devagar em demasia pode desgastar o seu entusiasmo. Mas, ao final, a escolha é mesmo sua.

A média da grande maioria dos peregrinos que conheci é de 5 a 11 horas de caminhada diária, com várias (muitas e muitas) pausas para descanso e contemplação da natureza e dos monumentos históricos nas cidades e vilarejos.

As distâncias entre os albergues variam em aproximadamente 20Km. Entre uma povoação e outra, 5Km (embora em casos isolados possam chegar até 17Km). Já na região da Galiza, os  últimos 153Km da Rota de Santiago, estes intervalos caem para um vilarejo a cada 1,5Km.

15- A que horas começar a caminhada?

O Caminho lhe dá a oportunidade de sentir verdadeiramente a natureza: você é acordado pelo sol, não pelo relógio. Come quando sente fome, não em horários pré-determinados. Caminha o tanto que o corpo deixa, e dorme quando  -e onde-   se pode.

Nos meses de muito calor, porém, é recomendado que você inicie a jornada o mais cedo possível  (5 ou 6 da manhã) a fim de evitar as horas mais tórridas, além de dar a oportunidade de você chegar mais cedo ao albergue e ver dobradas as chances de conseguir uma cama vazia e um banheiro ainda limpo.

16- Desvirtuamento do Caminho 

Infelizmente, as pessoas começaram a descobrir o Caminho como uma grande fonte de renda. Hoje em dia, são muitos o que se beneficiam das novas ondas de peregrinação. 

Os dois principais problemas:

a- Nem todos os companheiros de viagem são peregrinos de verdade. Há alguns (em especial nos meses de verão) que estão ali nos albergues usufruindo de um “turismo barato”. São os chamados “falsos peregrinos”. Eles são os que chegam por primeiro nos albergues (possuem um carro de apoio levando suas mochilas), pegam as melhores camas, conversam até tarde da noite e sujam os banheiros. São pessoas que dificilmente aprenderão o que é verdadeiramente o Caminho. 

b- Atentados ao sabor rústico e original do Caminho: Há governos provinciais que tentam “melhorar” o Caminho afim de atrair mais turistas, construindo estradas especiais para peregrinos em detrimento das trilhas rústicas, ou também instalando um sem número de placas de trânsito sinalizando as rotas (quando antes haviam somente flechas pintadas de amarela nas pedras e árvores), entre outras ações do tipo. Ou seja, um atentado ao sabor original da Rota de Santiago.

Para ambos os casos de desvirtuamento, a melhor arma é a conscientização. Converse. Reclame.

17- Ética peregrina

Mesmo que os outros peregrinos não demonstrem a mesma atenção com você, tome alguns cuidados para com os seus colegas. Lembre-se que os brasileiros possuem alto prestígio no Caminho, tão como em toda a Espanha (leia-se Paulo Coelho, músicos e craques de futebol), e não deve ser justamente você a abalar esta boa imagem, NÃO É?

- Nos albergues, respeite o silêncio absoluto dentro da área de repouso depois das 23h. 

- Se você madrugar, não arrume a mochila dentro do quarto (como a grande maioria o faz...). Se quiser mesmo sair cedo, pode ajeitar suas coisas na cozinha, na saleta de entrada ou em outro lugar qualquer. Além de não incomodar ninguém que está dormindo com o barulho, é prático: há mais espaço e você pode ainda acender a luz.

- Cuidado ao falar de política, religião ou futebol. 

- Tente não atrapalhar ou interferir em demasia na busca do outro. Cada um faz o seu Caminho.

- Não ignore pedidos silenciosos de ajuda.

18- Sozinho ou em grupo?

A cada ano, o Caminho está mais concorrido, levando em conta os anos (e décadas) anteriores. Ou seja, você só vai andar ou ficar sozinho se quiser. Mesmo no inverno, você encontrará nas rotas e nos albergues peregrinos como você. Acho que no Caminho, às vezes é muito bom a solidão dos quilômetros para você pensar. Mas não sempre! Faça amigos, troque experiências... Mesmo que você não fale a mesma língua, tenho certeza que todos se esforçarão para lhe entender.

19- Preparando-se para fazer o Caminho:

Trilha atravessando plantação de gira-sóis, arredores de Cizur Menor (Navarra).

"Quais os preparativos para a peregrinação?" -Esta é uma pergunta que recebi dezenas de vezes por E-mail depois que inaugurei meu site.

Bem, não tive tempo de preparar-me fisicamente (nem emocionalmente) antes de viajar à Espanha, o que pode ter causado alguns poucos transtornos, de certo, mas sem comprometer em nenhum momento minha viagem. Sugiro, portando, um preparo físico mínimo, como por exemplo, 2 ou três meses de academia.

Muitos que conheço antes de partir se encheram de todos os tipos de preparativos, na minha opinião exagerados: fizeram cursos de alpinismo (?); decidiram a época de partir pelo mapa astral; consultaram cartomantes (!) entre outras atitudes mais ou menos esdrúxulas.

Ao contrário disto, acho que consultar um médico, tomar uma vacina anti-tetânica, fazer um mini curso de espanhol, testar calçados e mochila em caminhadas leves são tarefas muito úteis antes de você partir para realizar o seu sonho pelos campos, bosques, montes e vales espanhóis.

20- Mais perguntas?

Se você deseja tornar-se um peregrino e não ficou satisfeito com estes dados, procure pesquisar com pessoas que praticam trekking, leia livros sobre o assunto, visite outros Sites na Web e consulte a Associação ou ex-peregrinos.

Túneis verdes em trilha rural, arredores de Casanova (Lugo).

Também, você pode mandar sua pergunta diretamente para mim, bastando assinar o Livro de Visitas. Se você quiser receber gratuitamente algumas dicas extras sobre o Caminho, deixe lá seu nome e endereço.

Boa viagem!

Guy Veloso

Página:  1 | 2 | 3
Anterior

Clique na seta acima
para retroceder

 
Textos e fotos © Guy Veloso


Índice | O Caminho | Dicas práticas | Ensaio Fotográfico | Mais Fotos | Mais Fotos 2 | Mais Fotos 3
Um Livro | Um Relato | Depoimentos | 30 dicas extras | Para quem não vai | S. Tiago na Amazônia
Crônicas | Outros Sites | Carta do Autor | Livro de Visitas
Como criar um link para este Site em sua página ?

 

 Copyright © 1998-2002. Reprodução proibida (Lei 9610, de 19.02.98).