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Capítulo X
O QUARTO ELEMENTO

– Recomendações ao nosso apóstolo! – um aldeão que capinava à beira da via rústica pediu que eu levasse suas preces a São Tiago. Sua esposa descansou também a enxada, gritando de longe: – Por que o peregrino anda sozinho? Deve ser muito triste!

O tempo estava encoberto ao abandonar Burgos por uma estrada rural. A etapa prometia ser amena, sem nenhuma subida. Apareceram novas e imensas bolhas em meus pés; mas, antevendo um aprazível passeio através dos ermos campos de Castela, não dei muita importância.

Passei por alguns povoados interessantes, fazendo como sempre questão de conhecer, fotografar e conversar com a população local. Com isso, muitas vezes demorava o dobro do tempo normal para atingir os objetivos.

Naquele dia caminhei lento, aproveitando a paisagem extensa da planura e os encontros amigáveis até Hornillos del Camino. Um pouco adiante, cheguei a um refúgio solitário em meio à grande meseta, o Arroyo Sambol, um galpão construído aos prados e cultivos, milhas distantes de qualquer povoação, com a finalidade de não desviar o autêntico traçado medieval que passava por ali há séculos contínuos.

Lá, estava só um casal de franceses. Eles haviam elegido aquela estalagem longínqua – sem colchões nem banheiro – seu lar por um dia e juntavam gravetos secos para uma fogueira que iluminaria sua noite naquele retiro.

Ajudei-os nesse trabalho logo descobrindo, pasmado, que ambos caminhavam há mais de três meses, desde que bateram a porta da sua casa e saíram andando desde ali, em Mont Saint-Michel, na Normandia.

Aos poucos foram chegando alguns aldeões de vilas adjacentes que, além de muitas histórias, traziam vinhos, queijos e salames. O mais idoso deles, sem maiores pudores, pegou a minha camisa da seleção que ora secava ao sol e agradeceu o "presente", recordando alegremente dos tempos de Pelé. Fazer o quê?

Após o banquete, resolvi partir, descansado e ávido para vencer mais algumas léguas pelo ancestral Caminho de Santiago, enquanto o velho agricultor vestia, feliz, "sua" camisa – com o 10 nas costas – ainda úmida.

Marchei através de campinas despovoadas por mais algumas horas. Eram plantios e pastagens ainda com as cores da primavera, estação que há pouco havia cedido seu lugar. O calor encharcava minha camisa pregada no corpo pelo suor, enquanto progredia solto, com a liberdade de andar para onde o nariz – e as flechas amarelas – apontavam.

A trilha tornava-se cada vez mais estreita, na largura exata de um pequeno trator. Por perto não tinha vilarejos, granjas nem mesmo currais de gado. Ninguém ao redor, muito menos carros ou máquinas. Somente uma densa vegetação rasteira estendia-se até onde a vista alcançava. Arbustos verdes em distintas tonalidades, flores do campo que também balançavam ao vento forte, em um horizonte colorido sem fim.

Havia também os passarinhos. Vinham de todas as partes, mais curiosos do que assustados. Sobre a minha cabeça faziam movimentos sincronizados e malabarismos diversos. Não paravam de cantar e davam a impressão de que voavam cada vez mais perto. E eram muitos.

Cantei alto junto com eles. Uma só música, em outro tom. Talvez tenha até dançado de mochila e tudo, não lembro. Acredito que a magia do local me tomou por inteiro.

De tão lento, resolvi parar por uns instantes em meio a uma plantação de trigo. Hipnotizado, senti uma comunhão com aqueles ramos dourados, aquela fragrância seca e com os raios solares que beijavam meu rosto.

Somente algum tempo depois, percebi que não tinha ali parado por acaso ou até mesmo por vontade própria. Era como se algo me convidasse a ficar. Parecia que há muito tempo eu já havia feito aquilo.

Passei a recordar meus dias de peregrinação. Lembrei-me da chuva, minha companheira na travessia dos Montes Pireneus. O sol flamejante das jornadas em Navarra. E o vento doce com o cheiro dos vinhedos de La Rioja.

Água, fogo, ar: faltava ainda um reino.

Em um impulso irresistível, joguei-me ao solo, um tapete ondulado de arbustos, sem medo de sujar as roupas ou de irritar a pele já muito castigada pelo sol. Toquei naquele solo rugoso e encostei meu ouvido esquerdo no que parecia ser o centro da terra.

Estirado ao chão, escutei algo. Um som vindo do coração do planeta. Inconfundível, pois ali apenas havia eu, a brisa e os pássaros a fazerem ruídos.

O tempo parou. Não havia dia nem noite. Nem horas ou segundos. Tudo porque a terra, o quarto elemento, estava falando em seu pulsar comigo. Naquele momento, éramos um só latejo de ventrículos.

Abri os olhos e tudo começou a girar. Virei-me de costas ao solo, abri meus braços e contemplei o imenso céu azul de nuvens brancas e cheias que se moviam numa velocidade assustadora, ao mesmo tempo que demonstrava uma proteção e intimidade que nunca havia percebido.

Comecei a reparar em como era o mundo visto daquele ângulo. Na altura dos olhos, os tufos de mato pareciam altas árvores, quase inatingíveis. Por elas, uma aranha – então colossal – passeava pelos seus grossos e fartos galhos. Uma abelha tornava-se vistosa águia sobrevoando suas copas frondosas, enquanto me cumprimentava.

Sim, eu vi outro mundo! Um mundo verdejante, panteístico. Senti-me pequeno a ponto de fazer parte daquela densa floresta de relva gigantesca, águias amarelas que zumbiam e de gotas de orvalho que poderiam facilmente encher meu cantil.

E meu peito tomou-se de entusiasmo por pertencer a esta, agora também minha, terra azul e verde.


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Textos e fotos © Guy Veloso


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